quinta-feira, 30 de março de 2017

Colibri preserva a tradição em Outeiro

*Publicado na página de Responsabilidade Social, no jornal O LIBERAL de 12/05/2016

BRENDA PANTOJA 
Da Redação

Teatro, música, dança, religiosidade popular e respeito à natureza. Todos esses elementos estão presentes nos cordões de pássaros juninos, uma manifestação cultural genuinamente paraense. Nas festas de São João, os cortejos ganham as ruas formados por personagens típicos da sociedade regional, como o índio, o caboclo, o ribeirinho e outros. 
Na sede do Cordão de Pássaro Colibri de Outeiro, os preparativos para montar o espetáculo já começaram e ocupam a mente e o coração dos brincantes. O trabalho com o cordão no distrito ganhou tamanha dimensão que motivou a criação de outros projetos voltados para a preservação e o fomento da cultura regional.
Hoje, o cordão tem 40 brincantes e faz parte da Associação Folclórica e Cultural Colibri de Outeiro, sendo sua principal atividade. “Batizado inicialmente de Beija-Flor, esse cordão foi fundado em Icoaraci por Teonila Ataíde  em 1971. Depois de seu falecimento, viemos para Outeiro em 1999 e tivemos que mudar o nome porque na Associação Folclórica de Belém já existia um cadastro com o nome de Beija-Flor”, conta a guardiã do cordão, a socióloga Laurene Ataíde. A coordenadora da associação herdou da mãe a missão de manter viva a tradição.
Além disso, a associação abriga uma sala de cinema, um infocentro e muitos livros e realiza o projeto Point Colibri de Comunicação, que é financiado pelo Oi Futuro, instituto de responsabilidade social da operadora de telefonia Oi, através do Programa Oi Novos Brasis. Por todo esse trabalho, a entidade é considerada um Ponto de Cultura, título conquistado após convênio com os governos federal e estadual. O local é aberto à comunidade, sendo o único ponto de internet livre do bairro e promovendo exibição de filmes mensalmente. Segundo Laurene, foi em 2008 que o grupo decidiu ampliar a atuação. “Não havia como ignorar a carência da região, em vários aspectos. Reunimos com a comunidade para pensar em projetos, mas precisávamos de recursos e para isso era necessário oficializar, criar CNPJ e tudo”, recorda.
Ela deixa claro que o principal objetivo do Colibri de Outeiro é a preservação dos cordões e das manifestações culturais da ilha de Caratateua. A brincadeira do pássaro continua revoando e ganhando força, mesmo 45 anos após a criação, graças à paixão de Laurene pela cultura, interesse que passou de mãe para filha, como tradicionalmente ocorre nesses grupos. “Minha preocupação em resguardar essa expressão é por ela ter origem na nossa terra. Não existe registro de pássaros juninos em nenhum outro lugar, além de ser uma bela apresentação, que remete ao imaginário e ótimo canal para promover a cultura entre a população de baixa renda”, defende.
A narrativa da encenação gira em torno da caçada, morte e ressurreição de um pássaro, o personagem central. Outros personagens aparecem, como fazendeiros, índios, nobres, fadas, feiticeiras, príncipes e princesas. Depende da roupagem de cada grupo, que parte desse enredo básico para criar várias peças populares. Carolina da Silva, 19, vai interpretar a princesa e está há dois anos no Colibri de Outeiro. Ela garante que entrar na Associação mudou sua visão sobre muitas coisas, incluindo ela mesma. 
“Antes, não fazia ideia do que eram os pássaros juninos. Conheci através de uma amiga na escola e me chamou a atenção a oportunidade de exercer o teatro. Tem sido uma experiência ótima. Me deu maior conhecimento sobre a cultura do Pará, me tornei mais sociável, mais responsável e aprendi a respeitar mais a opinião dos outros, trabalhar em equipe e, principalmente, me ajudou a lidar com a epilepsia”, avalia. O tempo ocioso que Carolina tinha quando chegava da aula passou a ser ocupado pelos ensaios e oficinas, o que a tornou uma jovem mais interessada em assuntos culturais.
A epilepsia trazia uma série de inseguranças para ela, que tinha dificuldade em fazer amigos e agora, após se integrar muito bem com os brincantes, está com a autoestima elevada e se prepara para um dos principais papeis no cordão. “Não enxergo mais a epilepsia como um problema. Aliás, aqui passei a refletir mais sobre inclusão, pois temos uma brincante especial [com deficiência intelectual]. Ser a princesa me dá vontade de fazer ainda melhor. Encaro o cordão como um trabalho mesmo”, completa. 

PARA TODOS
A acessibilidade cultural é uma das metas de Laurene Ataíde, que concluiu um mestrado na área recentemente e está trabalhando na adaptação de peças do grupo por meio de audiodescrição e linguagem brasileira de sinais. Por meio de projetos aprovados em editais, o Colibri de Outeiro já realizou circuitos de apresentação em outros estados, como Ceará e Maranhão, além de muitas cidades do interior paraense. O impacto na vida dos jovens é visível, afirma a socióloga. “Estamos em uma área considerada vermelha. Estando conosco, eles não estão soltos, desfrutam de um lazer sadio, se educam, adquirem cultura. Alguns que nos acompanham nas viagens nunca tinham saído nem de Outeiro e puderam conhecer novas regiões. Isso expande os horizontes”, comenta.
Tayres Pacheco, 26, é brincante há seis anos, formada pela Escola de Teatro da Universidade Federal do Pará e interpreta a “Matuta”. Ela ministra oficinas de teatro nas escolas da comunidade e é engajada na divulgação dos pássaros juninos. “Nós criamos o nosso próprio tipo de teatro e isso tem uma relevância cultural enorme, mas quase ninguém conhece. É legal levar para as escolas, pois ensina as crianças a valorizar desde cedo. Além de enriquecer a bagagem cultural dos participantes, a Associação serve como um espaço para conversar com os adolescentes sobre vários temas que identificamos na ilha, como sexualidade, drogas e violência”, ressalta.

Documentação é essencial para divulgar a cultura regional no Estado

Segundo Laurene Ataíde, os cordões de pássaro estão em avançado processo de desaparecimento. Em menos de 20 anos, a capital paraense já viu dez grupos encerrarem as atividades. Um ponto crucial para preservar é documentar, registrar e divulgar a cultura local. É aí que entra o Point Colibri de Comunicação. O projeto foi pensado para capacitar em produção audiovisual os 40 integrantes do cordão, de todas as idades, mas com foco nos adolescentes e jovens. Em execução desde o ano passado, os participantes compraram equipamentos profissionais de filmagem e fotografia, promoveram oficinas de edição de vídeo e texto, e ainda organizaram eventos. 
No mês passado, eles fizeram uma mostra audiovisual, onde apresentaram uma coletânea de vídeos criativos sobre as atividades culturais em que a população da ilha é protagonista. O Círio de Nossa Senhora de Conceição, os desfiles de carnaval e as festas juninas foram alguns dos temas dos vídeos e também serão apresentados em fotos na Mostra Fotográfica “Sob os Olhares do Colibri”, que será exposta entre os dias 25 e 28 deste mês, na sede da Associação. Os estudantes Rafael da Silva, 21, e Bruno Santos, 26, são alguns dos mais ativos na produção de conteúdo e descobriram a aptidão com fotografia e filmagem através do Point de Comunicação.
Rafael participa do cordão há oito anos e faz o papel do caçador, enquanto Bruno está há três anos no grupo e interpreta o príncipe. “Além das técnicas em foto e filmagem, a gente está sempre aprendendo sobre um tema diferente, em contato com outros grupos e essa troca é muito boa. Eu era pobre em cultura, aqui aprendo bastante”, diz Rafael. O trabalho de registrar a realidade da comunidade em que vivem provoca uma consciência social nos jovens, que também retratam problemas como erosão nas praias de Outeiro e a falta de estrutura. “Passei a me interessar muito mais por fotografia, atividade que pretendo manter. O teatro também me ajudou a perder a timidez”, complementa Bruno. Os jovens atendidos pelo projeto do Point também atualizam as redes sociais do Colibri.

INFORMAÇÃO
A coordenadora da área de Sustentabilidade do instituto Oi Futuro, Flávia Vianna, garante que o Point Colibri de Comunicação, aprovado no edital de 2014, ainda tem pelo menos seis meses de funcionamento pela frente. “A proposta do programa Oi Novos Brasis é desenvolver iniciativas socioambientais inovadoras que utilizem as tecnologias de comunicação e informação pra acelerar o processo de desenvolvimento local”, define. 
Na visão dela, as ferramentas do audiovisual e da fotografia tem sido bem usadas pelo Colibri, a partir do momento em que fazem um resgate histórico e cultural de Outeiro, “além de enfatizarem questões que a própria população identifica como fragilidades do território, o que pode até fundamentar um diálogo com o poder público e a sociedade civil”, observa. Ainda não há previsão para o lançamento de uma nova seleção. Apostar em cultura em uma área como a ilha, que é carente de uma série de serviços, é um meio de promover sustentabilidade.
“Há discursos que colocam a cultura como um dos pilares da sustentabilidade, ao lado dos pilares econômico, ambiental e social. Isso faz sentido porque não dá para dissociar o individuo de sua cultura e todos esses fatores estão relacionados”, destaca. O próximo projeto da Associação é o I Festival de Pássaros e Outros Bichos de Belém, marcado para agosto. O evento recebeu uma verba de R$ 100.000 pelo programa CAIXA de apoio a Festivais de Teatro e Dança. A guardiã homenageada será Teonila Ataíde e duas de suas peças serão representadas pelo cordão Colibri: “Loucura de uma paixão” e “Os poderes de uma feiticeira”. Laurene adianta que os 17 grupos da capital paraense irão participar e que o público irá presenciar uma grande celebração da cultura local.

Serviço
- Site: http://colibriouteiro.6te.net/
- Página: http://www.facebook.com/PointColibri/
- Contato: 9 8861-6467 e 9 8278-4030 (Laurene Ataíde)
- Endereço: Rua Tito Franco, nº 183, bairro São João do Outeiro

quinta-feira, 23 de março de 2017

Projeto combate violência na Sacramenta


*Publicado na página de Responsabilidade Social, no jornal O LIBERAL de 21/04/2016

BRENDA PANTOJA
Da Redação


Com mais de 44 mil moradores, o bairro da Sacramenta, em Belém, tem uma grande população jovem. Dados do Censo 2010 mostram que o número de habitantes, na faixa etária de 5 a 19 anos, gira em torno de 10.753 pessoas. Visto como um dos bairros mais perigosos da capital paraense, a administradora Rita Pantoja decidiu tomar uma iniciativa para combater os índices de violência da área. Há 17 anos, ela fundou a Associação Projeto Renascer, apostando na qualificação, educação, esporte, lazer e cultura como ferramentas para melhorar a vida de crianças e jovens.
O trabalho é realizado por meio de projetos como o Ciranda da Arte com Ballet e Ciranda da Arte com Futebol, que atende crianças entre 6 e 12 anos. As meninas e os meninos não só treinam ballet e futebol, como também realizam atividades de pintura e leitura. Já os projetos Menor Aprendiz e Capacitação para Geração de Emprego e Renda são voltados para adolescentes e jovens, respectivamente. A associação também recebe adultos em busca de qualificação e os cursos ofertados são de atendimento ao público, vendas e marketing, recepcionista, auxiliar de departamento de pessoal e estoquista, em parceria com Serviço Brasileiro de apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac).
Em quase duas décadas de funcionamento, a entidade atendeu cerca de seis mil famílias e atualmente tem 80 integrantes. A sede fica localizada na travessa Alferes Costa, próxima ao canal São Joaquim, sendo de fácil acesso para o público de bairros adjacentes, como Barreiro, Val-de-Cães, Telégrafo e Paraíso dos Pássaros. “O nosso principal objetivo é gerar um impacto positivo na sociedade e temos visto isso se refletir na queda da evasão escolar, nas moças e rapazes que entram cedo no mercado de trabalho e ganham novas perspectivas”, declara Rita.
O adolescente Gustavo dos Anjos, 17, mudou de postura após passar pelas capacitações promovidas pelo Renascer. Ele cursa o 1º ano do ensino médio e está buscando o primeiro emprego, contando com o apoio da associação. “Hoje já penso em fazer faculdade e planejar o meu futuro, antes não me preocupava com isso. Depois da Associação Renascer, procurei outros cursos e estou fazendo um aos sábados, que vai durar seis meses e vai me ensinar várias funções, como caixa de supermercado, auxiliar administrativo, almoxarifado”, conta.
Gustavo mora no Barreiro e, para ele, a falta de oportunidades em muitos bairros acaba desanimando os jovens. “Além disso, percebo discriminação com os jovens da periferia em vários espaços da cidade. Esse tipo de coisa a gente tem que vencer. Eu acredito que sou forte, que vou conseguir me sair bem e espero conseguir logo uma vaga”, ressalta. Jacilene Gama, mãe de Gustavo, foi quem o incentivou a começar a fazer as qualificações e está satisfeita com o desenvolvimento do filho. “Aqui na área falta presença do poder público, temos poucas atividades para os nossos filhos e não é bom deixar eles crescerem acostumados a estar sempre na rua, por causa da criminalidade e das drogas. Nesse sentido, o curso foi muito bom para ele se atualizar, se motivar a batalhar mesmo”, avalia.
O currículo de Gustavo foi enviado para vários parceiros da associação, que incluem redes de supermercado, de farmácia e shopping centers. “O currículo que vai encaminhado por nós tem maior credibilidade porque são parceiros que conhecem o nosso trabalho. O retorno tem sido muito bom e os alunos atendidos recebem até treinamento sobre entrevistas de emprego e dinâmicas de grupo”, diz Rita. O ponto alto do trabalho com a capacitação de adolescentes, jovens e adultos, ainda segundo ela, é ocupar o tempo ocioso, melhorando o currículo e a autoestima deles.
Focado no público infantil, o Ciranda da Arte nasceu há 10 anos com a intenção de valorizar a arte-educação. Com aulas duas vezes por semana, os professores revezam atividades de teatro, desenho, música, leitura com ballet e futebol. “Nossas crianças sofrem com a deficiência na oferta de atividades, de espaços de lazer, de uma educação mais completa. Esse projeto é uma forma de promover a inclusão delas por meio da arte e do esporte”, afirma. O Ciranda da Arte com Ballet recebe apoio do Banco da Amazônia há três anos.
No entanto, as aulas do Ciranda da Arte tem um diferencial. Nos primeiros 20 minutos de cada encontro, os educadores conversam com as crianças. Falam e ouvem o que eles tem a dizer sobre diversos temas: família, meio ambiente, escola, cidadania, amor ao próximo e espiritualidade. “Queremos reforçar valores com eles, que possam ser levados para dentro de casa, para a vizinhança, para a sala de aula. A sociedade está carente disso em vários ambientes e eles estão em processo de formação de caráter, por isso é bom investir”, observa o professor de futebol, Miguel del Valle.

Equipe comemora a formação de pessoas já atendidas pela associação

Humanização é o ponto chave da atuação do Projeto Renascer, defende a orientadora Celmira Pantoja. “A gente sente nas crianças o desejo e a alegria de fazer a dança, de praticar o futebol. Isso é muito importante para eles e para os pais também, ainda mais porque aliamos o ensino ao aconselhamento. Reforçamos bons princípios de honestidade, respeito e companheirismo”, pontua. Ela diz que é comum e muito gratificante encontrar jovens atendidos pelo projeto trabalhando em lojas, cursando universidades públicas e que vários deles se tornaram pais responsáveis, fazendo com que a associação atenda uma segunda geração de moradores.
Rita destaca que a entidade também atua em outras frentes. Tempos atrás, realizaram um projeto de ensino de capoeira e há pouco tempo implantaram o reforço escolar em matemática e leitura. A sede fica em uma casa de dois andares, mas apenas o pátio está disponível para o público e o espaço está ficando apertado, precisando ser ampliado. A programação ocorre nos dias de terça, quinta, sexta e sábado e uma arena é alugada para as aulas de futebol. A equipe é composta de cinco pessoas, incluindo os professores contratados.
“A experiência nos mostrou que não podemos depender de voluntários para coordenar os projetos e, como eles são muito importantes e priorizamos a qualidade do que é ensinado, temos educadores contratados. A professora de dança, por exemplo, é formada na área pela Universidade Federal do Pará”, acrescenta. A associação também entrega cestas básicas para pessoas de baixa renda e realiza ações educativas no bairro. A próxima na agenda será uma palestra sobre a gripe H1N1 e a presença de agentes de saúde para vacinar o público-alvo.
No momento, eles contam somente com os recursos financeiros do Banco da Amazônia, que repassa verba especificamente para o projeto Ciranda da Arte com Ballet, e doações da comunidade. Um dos maiores desejos de Rita é que a população se aproprie da iniciativa e ajude a garantir a sustentabilidade do projeto. “Mesmo com o aporte do banco, tentamos incentivar as pessoas a se engajarem, para que se apoderem desses serviços. Não é fácil, às vezes a comunidade quer se desprender dessa responsabilidade e esperar somente pelo poder público. É difícil se articular, exige muita consciência crítica, mas apostamos que vamos conseguir”, argumenta.
Maria Sales Araújo, 55, é mãe de Jenifer Raíssa Araújo, 10, que frequenta as aulas de ballet há dois anos. Ela também é avó de Pedro Vítor Araújo, 9, e Heitor Lima, 6, que fazem parte do projeto de futebol. Duas vezes por semana, ela faz questão de levar as crianças para as atividades e acredita que a sociedade poderia participar e ajudar mais a associação. “Mesmo quando tem reunião com os pais, muita gente falta. Não podemos esquecer que a união faz a força. Nós temos uma grande responsabilidade com as crianças e eu passo essa noção para eles, não deixando faltarem ou abandonarem o projeto, até porque eu vejo como faz bem a eles”, comenta.
Desde que começaram no projeto, ela notou que eles estão mais interessados pela leitura e que estão se expressando melhor. “Sem isso, as opções deles no tempo livre seria ficarem soltos pela rua? Ou presos em casa vendo televisão? Aqui eles gastam energia e aprendem bastante. É muito boa a iniciativa porque aqui faltam creches e ela faz a diferença para as mães que trabalham fora e não tem onde deixar os filhos”, complementa. Estudante do 6º ano do ensino fundamental, Jenifer pratica ballet há quase quatro anos.
As aulas começaram em um cursinho particular, mas foi ficando apertado para o orçamento da família e era longe de casa. “Fiquei feliz de poder continuar a fazer ballet porque é algo que me faz sentir alegre. Gosto muito de ensaiar, mas gosto mais das apresentações, de estar em um espetáculo”, revela. A garota já se apresentou no Theatro da Paz e em shoppings. Apesar de confessar que nunca quer abandonar a dança, Jenifer deseja ser professora. “O projeto me ajudou a ler mais, gosto das histórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo, de poesias e de Lendas da Amazônia”, completa.

Ciranda da Arte vence edital do Banco da Amazônia dois anos seguidos

Sobre a parceria com o banco, o gerente de Imagem e Comunicação da instituição, Luiz Lourenço Neto, lembra que tudo começou com a inscrição do projeto no edital de patrocínio de 2014. O Ciranda da Arte com Ballet foi aprovado na seleção em dois anos seguidos e, neste ano, o apoio continua porque a empresa julgou interessante manter a continuidade da ação social. “Dos nossos recursos destinados à responsabilidade social, 80% é concedido via edital e 20% vai para projetos contínuos. Dessa vez, a Associação Renascer se encaixou nessa categoria”, explica.
No entanto, ele detalha que a continuidade não é garantida por muito tempo, dificilmente ultrapassando dois a três anos. O motivo é estimular a comunidade a comprar a ideia do projeto e o ajude a rodar. Para isso, o dinheiro do edital deve ser usado na divulgação da iniciativa, na aquisição de equipamentos e pagamento de instrutores. Em 2016, o banco destinou quase R$ 2,5 milhões, valor 8% maior do que no ano passado, a 132 projetos artísticos, culturais, educativos e esportivos em toda a Amazônia Legal. Ainda de acordo com Luiz, 40% desses projetos contemplados estão no Pará. 
“Temos projetos maiores via Lei Rouanet e uma modalidade de apoio para eventos artísticos que contribui para fomentar a cultura na região. Em um momento em que muitas empresas estão diminuindo orçamento para iniciativas sociais, nós investimos mais por acreditar que temos um importante papel social, como banco inserido na Amazônia”, declara. Luiz informa, ainda, que as inscrições para o próximo edital serão abertas em agosto e que “várias possibilidades e surpresas estão sendo estudadas na área para 2017, quando o Banco completa 75 anos”.

terça-feira, 21 de março de 2017

Boas práticas combatem trabalho infantil

*Publicado na página de Responsabilidade Social, no jornal O LIBERAL de 14/04/2016


BRENDA PANTOJA
Da Redação


Ver crianças vendendo bombom na rua e adolescentes limpando para-brisas no sinal de trânsito é mais uma cena comum para grande parte da população. No entanto, o trabalho infantil é um grave problema no Pará, que tem 223.338 meninos e meninas em situação de exploração, de acordo com os dados de 2014 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Estado é o quinto no ranking nacional com a maior ocorrência de menores de 18 anos trabalhando ilegalmente. Diversos órgãos públicos, organizações não-governamentais e instituições têm se mobilizado para discutir o tema, mas como engajar a sociedade civil e possibilitar que cada cidadão possa contribuir de forma efetiva para combater essa prática?
O projeto “Acadêmico Padrinho-Cidadão” foi criado com esse objetivo pela Comissão de Erradicação do Trabalho Infantil do Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região (TRT8). Lançado há duas semanas, já conta com mais de 100 voluntários interessados e 55 afilhados confirmados. A iniciativa consiste em estimular os universitários a atenderem estudantes de escolas públicas entre 7 e 18 anos incompletos com vários tipos de atividades: aulas de reforço escolar, musicalização, brincadeiras, rodas de leitura e outras expressões de solidariedade.
A ideia é ocupar os horários ociosos dos alunos, impedindo que sejam vítimas do trabalho infantil. A comissão também estipulou 2016 como o “Ano da Aprendizagem”, com ações baseadas na lei 10.097/2000, que garante uma formação técnico-profissional para jovens de 14 a 24 anos, segundo a juíza Maria Zuíla Lima Dutra, titular da 5ª Vara do Trabalho de Belém e Gestora Nacional e Regional do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil. “No nosso caso, o público alcançado através do Programa da Aprendizagem é apenas de 14 a 18 anos incompletos, por meio de parcerias para oferta de cursos e vagas de trabalho, conscientizando também os empregadores”, explica.
O “Acadêmico Padrinho-Cidadão” veio para ampliar a atuação no âmbito da aprendizagem e fortalecer o crescimento pessoal e educacional dos voluntários e dos afilhados. Um dos padrinhos é o acadêmico de Direito Bruno Cézar Tavares, 31, que se comprometeu a auxiliar quatro jovens entre 14 e 17 anos. Ele decidiu estimular os afilhados a realizarem cursos de capacitação profissional em instituições parceiras da comissão e vai orientá-los sobre a inserção no mercado de trabalho como aprendiz. Para ele, a experiência está sendo engrandecedora. 
“Como estudante do Direito, acredito que preciso estar voltado para os problemas sociais da minha região. Encontrei uma forma de fazer isso com o programa, dando suporte a esses jovens. Incentivo, digo para não desistirem de buscar novas perspectivas. Todo dia dedico um tempo para conversar com eles e nos reunimos de vez em quando”, conta. Em um diálogo constante e produtivo, ele tira dúvidas sobre os cursos, orienta sobre o desempenho escolar e sugere leituras para os dois rapazes e duas moças que acompanha nos bairros do Coqueiro e Aurá, em Ananindeua. A estudante Natália Palheta, 14, está no 9º ano e é a afilhada mais recente.
Ela vê no projeto uma chance de garantir um futuro melhor. “Estou interessada em fazer cursos na área de relacionamento com o público e acho que chances como essa são muito boas, precisamos aproveitar. É melhor do que estar em casa sem nada para fazer e vai acrescentar para o meu desenvolvimento”, comenta. O trabalho infantil é Projeto ocupa tempo em que o aluno está fora da escola com atividades uma questão presente ao redor de Natália, que conhece a história de uma família onde a dificuldade financeira obrigou o filho mais velho a largar a escola para trabalhar como ambulante. Bruno ressalta que o projeto gera consciência cidadã entre os acadêmicos, colaborando para que se formem profissionais com mais responsabilidade social. 

MUSICALIZAÇÃO
O padrinho-acadêmico Tayrony Santana, 18, concorda e está empolgado com a iniciativa, que veio para reforçar o trabalho de musicalização que ele faz com os jovens do bairro do Curió-Utinga. Ele cursa o terceiro semestre de Direito e está atendendo nove afilhados, que frequentam a casa dele aos sábados para aprender a tocar violão. Os alunos tem entre 11 e 17 anos.
“Ensinar esses jovens faz com que eles passem menos tempo na rua, que tenham influências positivas, que tenham uma atividade de lazer aprendendo a tocar um instrumento, deixando-os menos vulneráveis ao trabalho infantil”, observa. Ele está feliz de ver o empenho dos afilhados, que são pontuais e praticam os exercícios em casa, evoluindo bem no aprendizado. “Imagina se cada universitário apadrinhasse uma criança ou adolescente. Seria mais fácil vencer esse problema”, completa.
Jonas Cardoso Silva, 14, é um dos afilhados que está aprendendo violão. O garoto já pensa nas outras possibilidades do projeto. “Estou gostando muito das aulas porque ocupam o nosso tempo. Antes, nesse horário, ficava em casa sem fazer nada e agora criei uma nova responsabilidade, a de estudar música. Estavam comentando de vir um outro padrinho para ajudar a gente e ensinar inglês, espero que dê certo”, afirma. Adolescentes e jovens que abandonam o colégio para vender água, lanche ou trabalhar em oficinas mecânicas são realidade no bairro, dizem Jonas e o colega Eldio Rodrigues.
Eldio tem 17 anos e está no 3º ano do ensino médio, preparando-se para ingressar no curso de Ciências da Computação. Ele percebe que a falta de oportunidades e a pressão do trabalho na infância levam muitos meninos e meninas para caminhos errados. “Um bairro que não tem espaço de lazer e atividades culturais também é ruim. Todo jovem gosta de sair, passear, socializar... não quer ficar parado. Juntando isso com a pobreza de muitas famílias, eles começam a trabalhar cedo e alguns acabam se envolvendo com drogas e criminalidade”, analisa. Tocar violão sempre foi uma vontade do rapaz, que está satisfeito por receber aulas de graça. “É muito legal, da parte de todos os padrinhos, abraçar um projeto como esse. A gente vê que o trabalho infantil é algo que todo mundo conhece, muitos se interessam, mas a maioria das pessoas se acomoda. Esses padrinhos fizeram diferente”, acrescenta.

Projeto ocupa tempo em que o aluno está fora da escola com atividades

A juíza titular da 2ª Vara Trabalhista de Belém Vanilza Malcher, que também integra a Comissão de Erradicação do Trabalho Infantil do TRT8, destaca os próximos passos da mobilização. “Teremos a Semana da Aprendizagem, entre os dias 2 e 6 de maio, quando serão realizadas programações focadas nesse eixo. Serão seminários com alunos de escolas públicas, com universitários, terá uma audiência pública no Ministério Público do Trabalho, entre outros eventos”, adianta. A intenção é chamar a atenção para o tema e mobilizar todos que possam contribuir.
O TRT8 vai divulgar no dia 12 de junho, celebrado como o Dia Mundial Contra o Trabalho Infantil, uma pesquisa feita pela comissão nos últimos dois anos, mostrando os focos de trabalho infantil no Pará. Foram entrevistadas 234 mil crianças e adolescentes em 30 municípios e o levantamento comprovou que, na capital, o maior índice é de serviço doméstico e de ambulantes. “De todos os trabalhadores infantis da Região Norte, 55% estão no Pará. É alarmante. Ainda há o discurso de que colocar crianças e adolescentes para trabalhar é melhor do que deixar na rua ou do que estar roubando”, pontua a juíza Zuíla Dutra.
Contudo, ela argumenta que o trabalho infantil é um ato ilícito, tal como o roubo. “Não podemos combater um ilícito com outro. Ambos trazem consequências perversas para a infância e, por consequência, para a sociedade”, defende. Vanilza frisa que a prática está diretamente ligada ao alto índice de violência na região, uma vez que expõe a criança a sérios riscos e à ação de exploradores. Ainda de acordo com ela, o artigo 227 da Constituição Federal deixa claro que a responsabilidade pela proteção da infância e adolescência é dividida entre a família, o estado e a sociedade.
“O ideal seria a escola em tempo integral, mas não é a nossa realidade. Por isso pensamos nesse projeto como um caminho para ocupar o tempo que o aluno está fora da escola, com atividade lúdica, esportiva, educacional, e com pequenos cursos que possam ajudá-lo em sua formação profissional”, salienta. As juízas informam que as inscrições para padrinhos seguem abertas e que está sendo montado um banco de dados para acompanhar melhor as atividades.
“Pode ser um padrinho isolado ou um grupo de amigos, que podem escolher um ou até 30 afilhados. Não é fechado apenas para acadêmicos, ainda que eles sejam o foco. Temos servidores e empresários querendo participar. O importante é ajudar. O problema é imenso e precisamos de mais braços”, declara Vanilza. Um exemplo é o escritor Edgar Macedo, 57, funcionário público, que decidiu apadrinhar uma escola inteira. A proposta dele é levar cultura aos estudantes, com saraus e rodas de leitura. Ele, que é poeta, vai se reunir com outros amigos para preparar atividades lúdicas para as turmas. 
Durante uma das reuniões do projeto, ele adotou a escola estadual Marilda Nunes, no bairro do Benguí, que ensina do 6º ao 9º ano. A diretora da unidade, Ivanete Figueiredo, que compareceu ao encontro para conhecer a iniciativa, ficou muito contente de sair de lá com um padrinho para os alunos. “Estimular o interesse pela leitura alimenta a consciência crítica. Com a poesia e a literatura, elas poderão brincar com a realidade, ter outros meios de se defender dos riscos que se apresentam na infância e adolescência. A formação cultural é essencial e faz parte da construção de um cidadão”, acredita.
A comissão é ligada ao Programa de Combate ao Trabalho Infantil e de Estímulo à Aprendizagem, do Tribunal Superior do Trabalho (TST) e Conselho Superior da Justiça do Trabalho (CSJT). O projeto “Acadêmico Padrinho-Cidadão” foi lançado em Belém, mas poderá ser executado em todo o Pará e Amapá, área de abrangência do TRT8. No Pará, tem como parceiros: Faculdade Maurício de Nassau, Uepa, Unama, Proativa do Pará, CIEE, Sebrae, Associação Comercial do Pará, Federação das Associações Comerciais do Pará/Faciapa, Seduc, Secretarias Municipais de Educação de Municípios Parceiros do TRT8, pedagogos e professores em geral. Mais informações podem ser obtidas com a Escola Judicial do TRT, pelos telefones 4008-7278 / 7280.