terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Combate ao desperdício muda postura

*Publicado na página de Responsabilidade Social, no jornal O LIBERAL de 03/03/2016

BRENDA PANTOJA
Da Redação

Diferente das garrafas PET e latinhas de alumínio, que possuem um valor no mercado de reciclagem, alguns resíduos vão direto para o lixo sem que o consumidor pense duas vezes em um destino mais responsável. É o caso de objetos como embalagens de shampoo e condicionador, esponjas de lavar louça, materiais de escrita e itens de higiene bucal. São produtos comuns e amplamente usados no dia a dia de milhões de lares, mas a falta de consciência no consumo faz com que toneladas deles se acumulem nos lixões e aterros, poluindo o meio ambiente. Quebrar esse ciclo é o objetivo de campanhas como a “Faxina nos Armários”, promovida até 10 de maio pela Faber-Castell em parceria com a TerraCycle.
No bairro do Coqueiro, em Ananindeua, os alunos do Colégio Interativo são participantes ativos do projeto e já se apropriaram dessa responsabilidade ambiental. Eles promovem a coleta desses resíduos, considerados de difícil reciclabilidade, engajando toda a comunidade escolar e a vizinhança na tarefa. Em menos de um mês de ação, eles conseguiram mais de 500 peças para o “Faxina nos Armários”, o que inclui lápis, lapiseiras, canetas, canetinhas, giz de cera e marcadores de texto quebrados ou em desuso. Assim que conseguirem encher uma caixa grande, todo o material será enviado a São Paulo, sem custo algum para a escola, para ser transformado em matéria-prima e introduzido na estrutura de novos produtos como lixeiras, pás de lixo e suportes de notebook.
Este é o modelo de arrecadação difundido pela TerraCycle, empresa multinacional especialista em reciclagem, que atua com várias frentes de coleta. Através dela, o colégio participa de outras campanhas nacionais, como a brigada da Colgate, que recebe itens de higiene bucal de qualquer marca, e a da Scotch Bridge, que coleta todo tipo de esponja de limpeza. Os estudantes também começaram a reunir as embalagens de produtos para cabelo para a campanha da Garnier Fructis, apesar de ainda aguardarem a confirmação da inscrição. Para eles, o importante é evitar que haja o desperdício.

A diretora Maria Emília Maia conta que a mobilização começou no ano passado, como um incentivo para a educação ambiental e valia ponto para as avaliações. Agora, se tornou uma preocupação genuína  do corpo estudantil, que sai às ruas para conscientizar os moradores mesmo sem ser mais uma atividade obrigatória. Os projetos preveem uma recompensa para os times que arrecadarem mais e garantem a eles um retorno financeiro, que pode ser revertido para uma instituição sem fins lucrativos.  "Vemos uma clara consequência desse trabalho na mudança de postura deles em relação ao lixo. Até a sala de aula passou a ser mais limpa depois que nos envolvemos com essa coleta. Eles estão mais conscientes”, observa o professor de Biologia Fábio Albuquerque, que também aproveita a iniciativa para discutir conteúdos como equilíbrio ambiental em sala de aula.

Em poucos dias, a estudante Anabela Souza, 14, do 1º ano, conseguiu juntar sozinha 290 itens de escrita, ficando como primeira colocada entre o corpo de 115 alunos. Para incentivá-los, a direção oferece alguns prêmios como lanche especial, brindes ecológicos ou até ingressos para o cinema. Sem timidez, a menina e outros colegas visitam as casas nas proximidades para pedir a colaboração de todos. “A gente explica que é um projeto que vai ajudar o meio ambiente. Diminuindo o acúmulo de lixo na rua, podemos diminuir os alagamentos, a contaminação e até a proliferação do mosquito da dengue”, destaca.
Marcelo César, 15, está no nono ano e percebeu que a reciclagem é pouco praticada por causa da desinformação. “As pessoas acham que fazer a coleta seletiva é complicado, depende só do poder público ou é apenas de garrafas pet e papel. Esse material que estamos recolhendo, muitos não sabiam que é possível reaproveitar. Alguns vizinhos compram a ideia e agora estão começando a separar e guardar para nós”, relata. Para o adolescente Pedro de Mendonça, 13, é gratificante sentir que está fazendo a diferença. “É muito legal ver o efeito da união dos alunos, ver que somos capazes de reunir bastante material e conscientizar a nossa família e amigos. Todo mundo acaba se envolvendo”, comenta. 
O caráter social sempre foi fortalecido na escola, ressalta a diretora, o que foi decisivo para o engajamento na questão ambiental. “Em outros anos, arrecadamos roupas e alimentos para as famílias carentes do Lixão do Aurá. Nesse mesmo estilo, os meninos e meninas participaram de tudo, inclusive da entrega. Acho que isso ajudou no desembaraço de pedir nas casas, na vontade de transformar uma situação”, avalia. Dependendo do volume arrecadado durante as campanhas da TerraCycle, a diretora espera poder reverter algum valor para as famílias do Aurá ou fazer alguma melhoria na unidade de ensino.
“Se os estudantes verem que o esforço deles pode render uma mudança concreta, vão ficar muito empolgados. O nosso objetivo é que eles adotem essa consciência para a vida e se tornem multiplicadores”, acrescenta. O Colégio Interativo também é adepto da coleta seletiva e, pelo menos três vezes por semana, eles recebem a visita de cooperativas de catadores. Os pontos acumulados junto à TerraCycle no ano passado ainda não foram resgatados. Os pais também são grandes apoiadores da iniciativa, a exemplo da mãe do aluno Eliseu de Souza, 11. “Ela trabalha como merendeira em uma escola de Marituba e notou que todo esse material era desperdiçado lá. Aí ela foi juntando tudo e conseguimos contribuir com uma caixa grandona cheia de lápis e canetas”, lembra ele, que está animado de poder participar do projeto.

Campanha pretende arrecadar de 150 a 200 mil itens de escrita


A expectativa da Faber-Castell, que está na quarta edição da campanha, é arrecadar de 150 a 200 mil itens de escrita até o final do prazo. Somando os três anos de realização, foram recolhidas mais de 478 mil unidades por dois mil times de coleta de todo o Brasil. A arrecadação começou em fevereiro, período em que os alunos ficam animados com o clima de volta às aulas e com a compra de novos materiais escolares.
É justamente nesse contexto que surge a iniciativa, inserindo o consumo consciente na pauta das escolas. “O tema está diretamente ligado ao desmatamento da Amazônia, entre outras matas nativas. Por isso, é de extrema importância que os alunos da região desenvolvam uma responsabilidade socioambiental desde a infância”, enfatiza Elaine Mandado, gerente de comunicação da empresa.
Segundo ela, as escolas configuram mais de 50% dos participantes do programa, que também conta com a atuação de igrejas, ONGs e empresas. Elaine reforça que além de evitar que os instrumentos de escrita acabem no lixo, e, consequentemente nos aterros, o colaborador da Brigada de Instrumentos de Escrita acumula pontos, que podem ser revertidos em dinheiro para a doação a uma instituição sem fins lucrativos.

Consciência ecológica coletiva arrecada 27,5 toneladas de resíduos

Somente no ano passado, a TerraCycle arrecadou no Brasil o equivalente a 27 toneladas e meia de resíduos de vários tipos. A empresa foi criada em 2001, chegando em solo brasileiro em 2009, e atualmente está trabalhando com oito programas de reciclagem, que incluem ainda embalagens de protetor solar, de produtos de maquiagem e frascos de perfume. Mônica Pirrongelli, representante da empresa no país, enfatiza que o principal foco é promover a educação ambiental e a construção de uma consciência ecológica coletiva.
“A mobilização gera um engajamento em cadeia, uma mudança de atitude nas pessoas, e se baseia no protagonismo do consumidor. Ele não só passa a ser um personagem ativo na destinação desses resíduos, como também tem o lado social, pois o que ele arrecada pode ser revertido para uma escola ou instituição sem fins lucrativos”, frisa. Seguindo os parâmetros de cada projeto, os integrantes dos times precisam juntar uma quantia mínima para enviar a caixa de forma gratuita pelos Correios, após colar nela uma etiqueta especial disponível no site da TerraCycle.
O “Faxina nos Armários” computa pontos de remessas a partir de um quilo, sendo que o peso médio de um lápis ou uma caneta é de 12 gramas e cada unidade corresponde a uma doação de R$ 0,02. Mônica explica que os materiais coletados passam pelo processo de reciclagem, que inclui uma série de procedimentos, como a separação, a lavagem e a extrusão. Os resíduos são transformados em uma nova matéria-prima, chamada Pellet e ela é vendida e utilizada para a produção de outros objetos como bancos, lixeiras, etc. Mais informações sobre o funcionamento da TerraCycle, e especificamente da iniciativa da Faber-Castell, podem ser consultados no site www.terracycle.com.br.

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